Como Perder Amigos Rapidamente
Write Review
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Para quem gosta de factos científicos devidamente sustentados

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Jul 30, 2025

Vivemos na era da informação, ou assim gostaríamos de acreditar. Com o acesso generalizado à Internet e o saber aparentemente ao alcance de um clique, era expectável que a sociedade se tornasse mais esclarecida, mais crítica e, em suma, melhor informada. No entanto, a realidade tem-se revelado bem diferente. Aquilo que poderia ter sido uma revolução no acesso ao conhecimento tornou-se, muitas vezes, um canal privilegiado para a disseminação de desinformação, pseudociência e teorias da conspiração. Estas últimas prosperam precisamente por serem simples, emocionalmente apelativas e, uma vez interiorizadas, notoriamente difíceis de desmontar.

É neste contexto que David Marçal surge como uma das vozes mais relevantes no combate à desinformação em Portugal. A solo ou em coautoria com Carlos Fiolhais, tem construído uma obra notável no domínio da divulgação científica. Mas o trabalho de Marçal vai além da simples explicação de conceitos científicos complexos em linguagem acessível. A sua missão é também a de desmascarar ideias erradas, desmontar falácias e combater a ignorância travestida de opinião.

O título provocador deste livro, Como perder amigos rapidamente, é por si só uma chamada de atenção. E torna-se ainda mais eloquente quando se lê o subtítulo em letras pequenas: “E aborrecer as pessoas com factos e ciência.” O tom irónico é claro, mas o propósito é sério. Esta obra representa uma continuação natural do percurso do autor, com um certo endurecimento no tom e na escolha dos temas, que são por vezes abertamente polémicos.

Marçal opta por ir mais longe, abordando tópicos espinhosos do debate público contemporâneo. Afirma, com base na literatura científica, que o mundo está, em muitos indicadores, a melhorar. Questiona a validade biológica do conceito de “raça” e a retórica em torno das chamadas “raças puras”. Reafirma a existência do sexo biológico como realidade binária. Aborda a questão da participação de mulheres transgénero em competições desportivas femininas à luz das evidências disponíveis. Estes temas, e outros com semelhante carga polémica, são tratados com rigor documental e sustentados por uma impressionante base de mais de 200 referências bibliográficas.

É precisamente aí que reside a força, e para alguns a ameaça, deste livro. Não se trata de meras opiniões. Marçal apresenta dados, estudos, fontes credíveis. E fá-lo de forma clara, directa, com ironia quando necessária, mas sempre ancorado no princípio de que a verdade científica deve ter lugar no debate público.

Não se exige que o leitor concorde com tudo o que aqui se afirma. Mas exige-se, isso sim, que discorde com fundamento. “Não concordo porque não gosto” não é um argumento, é apenas um reflexo da recusa em pensar criticamente. E talvez seja por isso que ler este livro possa de facto fazer perder alguns amigos. Mas em troca, ganha-se algo muito mais valioso: uma bússola para navegar num mar de desinformação.

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